Fim da Escala 6x1: Como Montar a Escala da Equipe de Vendas Sem Derrubar a Meta
A PEC do fim da escala 6x1 vai a voto no Senado. Veja o que o estudo da Centu mostra, como simular a escala 5x2 e recalibrar a meta da equipe de vendas sem perder resultado.
CONTORNO DE OBJEÇÕESVENDEDORESEMPREENDEDORISMO E GESTÃO DE NEGÓCIOS


Fim da Escala 6x1: Como Montar a Escala da Equipe de Vendas Sem Derrubar a Meta
Informação datada de 13 de outubro de 2026. O Senado tem votação em primeiro turno prevista para quarta-feira (14), às 14h. O resultado pode alterar o cenário descrito abaixo; confira o andamento da proposta antes de tomar decisões de planejamento.
Quem lidera uma equipe de vendas sabe que a escala de trabalho é parte da estratégia comercial, e não apenas uma questão de RH. É a escala que define quantos vendedores estão presentes no sábado de maior movimento, quantas visitas a equipe externa consegue fazer na semana e quanto da meta fica descoberto quando alguém folga. Por isso, a discussão sobre o fim da escala 6x1 interessa diretamente a quem responde por resultado comercial, independentemente da posição pessoal sobre a proposta.
O que está em discussão, sem tomar partido
A PEC 221/2019 propõe acabar com a escala 6x1 e reduzir a jornada máxima semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial, com pelo menos dois dias de descanso semanal remunerado e mantido o teto de oito horas por dia. O texto prevê possibilidade de compensação de horários e de redução da jornada por acordo ou convenção coletiva, além de uma transição gradual de 14 meses a partir da promulgação, em duas etapas.
A proposta já foi aprovada na Câmara e, no Senado, recebeu parecer favorável da CCJ em setembro. Para avançar, precisa de ao menos 49 dos 81 votos em cada um dos dois turnos, com três sessões de discussão entre eles. A liderança do governo busca reduzir esse intervalo por meio de um requerimento de calendário especial, de modo que a votação final ainda em outubro é possível, mas não garantida. Aprovar em primeiro turno não muda as regras de imediato.
Este blog não discute se a proposta deve ou não ser aprovada. Há quem a defenda como ganho de descanso e qualidade de vida para o trabalhador, e há quem alerte para aumento de custos, repasse de preços e rigidez na organização do trabalho. Os dois argumentos aparecem nas fontes consultadas. O foco aqui é prático: se passar, o prazo de adaptação é curto, e quem planejar antes chega na frente.
O que o estudo da Centu mostra (e o que não mostra)
A Centu, empresa de tecnologia voltada à gestão e montagem de escalas de trabalho, fez simulações com dados de oito supermercados que têm hoje entre 15 e 55 funcionários. Foram 32 simulações da migração de 44 horas em 6x1 para 40 horas em 5x2. O resultado: o custo de mão de obra variou de 1,7% a 11,6%, mesmo dentro da mesma rede. A conclusão central, segundo a reportagem da Gazeta do Povo que divulgou o estudo, é que a adaptação não será simplesmente uma questão de contratar mais gente. As empresas terão de redesenhar as escalas a partir da demanda efetiva de cada unidade, considerando como o movimento se distribui ao longo dos dias e horários.
Uma conta simples ajuda a dimensionar o problema. Se o salário se mantém e a jornada cai de 44 para 40 horas, a hora trabalhada fica 10% mais cara (44 ÷ 40). Numa equipe de seis vendedores, são 264 horas semanais caindo para 240: 24 horas a menos, o equivalente a 60% de um vendedor de 40 horas. Esse é um exemplo aritmético ilustrativo, não um dado da Centu. O intervalo de 1,7% a 11,6% sugere que o custo final depende menos dessa conta direta e mais da qualidade do desenho da escala.
Dois cuidados de leitura. O estudo vem de uma empresa que vende software de escalas e usa amostra pequena, restrita ao varejo alimentar; é um indicativo, não um retrato do comércio brasileiro. E não localizei o relatório completo: os números acima seguem a reportagem de 13 de outubro de 2026.
Por que "contratar mais gente" não resolve sozinho
A demanda do varejo e da venda externa não é uniforme. Uma lojista de Guarapuava (PR), ouvida pela mesma reportagem, relatou que, com três vendedoras, passaria três dias por semana com apenas duas na loja, e que fechar um dia da semana não é opção porque o sábado concentra a compra. É o retrato de um problema de cobertura de pico, não de total de horas.
O professor André Portela, da FGV EESP, lembra na mesma reportagem que os setores têm necessidades muito diferentes de escala, do alto-forno que não desliga ao varejo que funciona nos fins de semana, e defende que acordos e convenções coletivas tratem do assunto. O estudo da CNI citado na reportagem aponta, no caso da indústria, que o banco de horas teria de caber numa janela semanal menor, reduzindo a flexibilidade para absorver picos. Em resumo: o desafio comum às fontes é a variabilidade da demanda, e é nela que uma equipe de vendas precisa se apoiar.
Passo a passo para montar a escala da equipe de vendas
1. Mapeie a demanda real, por dia e por horário. Reúna pelo menos 12 meses de venda por dia da semana e faixa de horário, a partir do PDV, do ERP ou do CRM. O objetivo é enxergar onde estão os picos. Para equipe externa, o equivalente é o histórico de pedidos e visitas por dia da semana e por região.
2. Defina a cobertura mínima por função. Loja, inside sales, vendedor externo e pós-venda têm necessidades diferentes. Pergunte, para cada função e cada faixa de horário: quantas pessoas são indispensáveis para não perder venda? Nos picos, a cobertura mínima costuma ser mais alta do que a média da semana sugere.
3. Desenhe dois ou três cenários e simule antes. Por exemplo: (A) 5x2 com folgas fixas concentradas nos dias de menor movimento; (B) 5x2 com rodízio de fins de semana entre a equipe; (C) arranjos com compensação de horas, onde a lei e eventual acordo coletivo permitirem. Para cada cenário, simule custo total de mão de obra, horas descobertas nos picos e impacto estimado na venda. É exatamente esse tipo de simulação que o estudo da Centu usou, e dá para fazer uma versão simples numa planilha.
4. Recalibre a meta pela cobertura de pico, não pelo número de pessoas. Cortar a meta proporcionalmente às horas perdidas é tão arriscado quanto manter a meta igual. Se os picos continuam bem cobertos, a meta pode se sustentar; se a cobertura de pico cai, o risco está ali. Revise a meta individual considerando dias efetivamente trabalhados, carteira atendida e janelas de maior conversão.
5. Compense com produtividade o que a escala tirar. Aqui entram os temas que já tratamos neste blog. CRM com follow-up e lembretes reduz o tempo perdido com retrabalho. Atendimento por WhatsApp e inside sales cobrem dias e horários em que a loja ou o vendedor externo não estão presentes, no modelo híbrido que discutimos ao falar de vendas híbridas. Roteirização e curva ABC de clientes ajudam o vendedor externo a concentrar as visitas onde há mais potencial, como vimos nos artigos sobre abismo operacional e carteira equilibrada.
6. Revise remuneração e comissão com apoio jurídico e contábil. A proposta prevê a manutenção do salário, mas a forma como comissões, descanso semanal remunerado e eventuais compensações se encaixam em cada contrato exige análise especializada. Este artigo é informativo e não substitui orientação de advogado trabalhista ou contador.
7. Teste num piloto e comunique com antecedência. Se a transição for aprovada, há 14 meses para se adaptar. Use parte desse tempo para testar a nova escala em uma unidade ou equipe por quatro a oito semanas, medir o efeito na venda e ajustar antes de aplicar em toda a operação. Explique à equipe o que está sendo planejado: incerteza mal comunicada vira rotatividade.
E a equipe externa e o inside sales?
Para o vendedor externo, um dia a menos por semana significa menos janelas de visita. A resposta não é correr mais, é escolher melhor. Priorize os clientes de maior potencial pela curva ABC, agrupe visitas por região para reduzir deslocamento e passe o contato de baixa complexidade, como confirmação de pedido e acompanhamento simples, para o inside sales ou para canais digitais. Como discutimos aqui sobre o vendedor consultivo, visita presencial deve ser reservada para o que exige presença: diagnóstico, negociação e relacionamento.
Armadilhas que valem evitar
Manter a mesma meta sem recalibrar. Menos horas com a mesma meta empurra a equipe para o esgotamento, tema que já tratamos no artigo sobre burnout na área comercial e que costuma ser um problema de gestão, não de personalidade.
Replicar a mesma escala em todas as unidades. O próprio estudo da Centu mostra variação grande de impacto dentro da mesma rede. Cada unidade tem sua curva de demanda.
Planejar pelo total de horas e esquecer o pico. Perder cobertura no horário de maior conversão custa mais do que perder cobertura em horário fraco.
Improvisar compensações sem checar a base legal. Banco de horas, escalas especiais e acordos coletivos têm regras próprias, e erros aqui geram passivo trabalhista.
Conclusão
Aprovada ou não a proposta, a pergunta que o estudo da Centu deixa para quem lidera vendas é a mesma: qual é a distribuição real da minha demanda e como estou cobrindo cada faixa dela? Gestores que já conhecem seus picos, simulam cenários e têm processo comercial estruturado terão muito mais facilidade de se adaptar do que quem tentar resolver tudo na hora, apenas contratando. Planejar agora não é tomar partido, é tratar um prazo possível como o que ele é: uma janela curta para reorganizar a operação sem derrubar a meta.
Referências utilizadas neste artigo:
Fonte: Gazeta do Povo, reportagem de Cléber Moletta, com dados do estudo da Centu (oito supermercados, 32 simulações). Nome: "Do pequeno comércio à fábrica, como cada negócio será afetado pelo fim da jornada 6×1". Instituição responsável: Gazeta do Povo; estudo: Centu. Link: https://www.gazetadopovo.com.br/economia/efeitos-negocios-comercio-industria-hospitais-fim-escala-6x1/. Data da informação: 13 de outubro de 2026. (Relatório original da Centu não localizado.)
Fonte: Agência Senado. "PEC que acaba com escala 6x1 começa a tramitar no Plenário." Instituição: Senado Federal. Link: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2026/10/06/pec-que-acaba-com-escala-6x1-comeca-a-tramitar-no-plenario. Data da informação: 6 de outubro de 2026.
Fonte: Mix Vale. "Senadores votam PEC do fim da escala 6x1 em primeiro turno." Link: https://www.mixvale.com.br/2026/10/13/senadores-votam-pec-do-fim-da-escala-6x1-em-primeiro-turno/. Data da informação: 13 de outubro de 2026.
Fonte: Contábeis. "Fim da escala 6x1 pode avançar no Senado nesta quarta-feira (14)." Link: https://www.contabeis.com.br/noticias/80027/fim-da-escala-6x1-pode-avancar-no-senado-nesta-quarta-feira-14/. Data da informação: 13 de outubro de 2026.
Fonte: ABC Repórter. "Fim da escala 6x1 no Senado: votação prevista para quarta (14)." Link: https://abcreporter.com.br/2026/10/13/fim-escala-6x1-senado-votacao/. Data da informação: 13 de outubro de 2026.
Fonte: Revista Fórum. "Fim da escala 6x1: Senado retoma debate em meio à disputa eleitoral." Link: https://revistaforum.com.br/politica/fim-da-escala-6x1-senado/. Data da informação: 13 de outubro de 2026.
Se você quer ir além: existem softwares de gestão e simulação de escalas de trabalho que cruzam demanda por horário com a equipe disponível. A Centu, autora do estudo citado, atua nesse segmento, e vale avaliar qualquer ferramenta com olhar crítico, comparando mais de uma opção antes de contratar. Para quem quer começar sem custo, uma planilha com o mapa de demanda por dia e horário já é um ótimo primeiro passo.